tinha um papel no meio do caminho.

11set09

papelnocaminhoBateu a porta e sequer teve coragem de olhar de novo, para conferir se estava bem fechada. Andou sem rumo, sem vontade, sem porquê. Por onde passava, deixava pedacinhos de papel para que ele pudesse segui-la, se fosse de sua vontade. Na lanchonete, comprou aquele doce pequeno que ele gostava, que Dona Dodó sabia fazer fazer como ninguém, por puro medo de que, na sua caminhada, não encontrasse outro parecido. Lá, deixou um pedaço de papel do tamanho do doce, com um restinho do creme na ponta, tirado do canto da boca.

Passou pela cafeteria em que se conheceram e lembrou sorrindo que ela nem gostava de café. Resolveu deixar um pedaço de papel maior, porque a importância da lembrança também o era. Olhou para o mirante, os olhos quase apertados contra o sol, e fez voar um origami que deveria se parecer com um passarinho – nunca fora boa com formas, principalmente de papel. Sentou de bandinha no banco da praça que tantas vezes presenciou as suas piores brigas – lá não deixou nada, não queria mais se lembrar. Como se fossem feitos de pedra, os pedacinhos de papel não voavam. Não sabia se era a sua força de vontade ou tamanho dos pedaços, mas permaneciam ali, no caminho traçado.

Chegou à rodoviária, com os olhos mareados. Deixou o bloquinho naquele canto no qual tantas vezes se despediram. Não eram mais necessários os papéis porque, se chegado ali, ele saberia para onde ela teria ido. Embarcou sem chorar. O caminho era longo mas, pela primeira vez, sentia que estava indo sem deixar nada para trás.

No bloquinho, em resumo, tudo o que queria ter dito: cansei de fazer papel de boba; não volto mais.

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A trupe é de quinta, mas eu, que já comecei bem, e só dei as caras na sexta. Na segunda, um blogueiro indica um tema; na quinta, você confere o mesmo tema de perspectivas diferentes. Conheça os caminhões de papel da trupe!

amanda oliveira . ana maria . andré pacheco . izabel pompermayer . lara marx . rafael glass . rodrigo casales . victor godoi

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2 Responses to “tinha um papel no meio do caminho.”

  1. meo deos, que saudade das suas genialidades escritas!
    awesome, máin. muito bom mesmo. você continua afiada e nos fazendo inveja.

    beijo grande!

  2. Como sempre arrasou!!! Esta perdoada pelo atraso devido aos arrepios que senti ao ler seu texto!!! rsrsrsrs
    saudades demais de vc!


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