o passado ainda me cabe.

28set09

Apesar de não achar dos costumes mais saudáveis, eu adoro viver de passado. Adoro guardar, relembrar, reviver, ainda que em pensamento – só não gosto do cheirinho de mofo que, por vezes, dá.

Inspirada no querido Jean, decidi retomar textos antigos, que, há muito, já havia me esquecido da existência, mas que por motivos específicos ou não, gostei de reler (:

Esse foi originalmente publicado no antigo balbúrdia.

moinho

02 de outubro de 2005

Levadeira de moinho

“O vento leva”

Um castelo de cartas, uma casinha de dados, uma ilha de dominós – derruba. Nomes na areia, o sopro n´água, pegadas no chão – arrasta. Sonhos, agrados, doces desejos – leva. O vento leva para longe. Leva, e às vezes nos contempla com sua volta. A volta por vezes desejada, a volta às vezes não querida – destrói. Reduz a pedaços àquilo que se levou tempo para erguer, não se importa com o sofrer – porque, no final, o abraço mais provável é aquele que termina com as nossas mãos postas sob as costas.

Ele emaranha a blusa feita num fiar cauteloso, faz manchar a manga da camisa. Leva a paz e deixa o grito – e, se mais forte, chamamos de redemoinho. Redemói aquele olhar, aquelas palavras, aquele amor. Por ora, faz do silêncio o melhor remédio.

O vento é nosso amigo, em vezes… leva para junto de quem se quer, aproxima a lembrança distante, faz novear a bobice velha. Mas o moinho não; nunca. Ele se disfarça de brisa, arranca um sorriso das mentes taciturnas, faz atenuar a filáucia para dar lugar a novas novices. A gente se desarma, pensa que o vento mudou de direção, que o melhor veio – mas, sem dar de ombros, o redemoinho vem e vai, não deixa nada que se valha. E a gente, ingênua gente, coloca a culpa no vento; é, é muito mais fácil achar que as coisas acontecem de acordo com a sua direção, e que somos isentos de qualquer responsabilidade sobre.

A culpa é do moinho, minha gente, do redê – que, na vela do levar, rói, remói, redemói, e não deixa vestígio de pavio pra gente poder acender àquilo que o vento apagou.

Eu quis querer o que o tempo não leva, para que o vento só levasse o que eu não quero. Eu quis amar o que o tempo não muda, para que, quem eu amo, não mudasse nunca. (a.d.)
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